Segundo o Google, “roleta russa” é a operação que consiste em deixar uma só bala no tambor de um revólver, fazê-lo girar, apontar o cano da arma para si próprio ou para outrem, sem conhecer a posição exata da bala, e apertar o gatilho. Isso é feito por bravata e/ou desejo de experimentar emoções violentas. Vamos utilizar essa ideia para descrever uma improvisação, de mau gosto, feita em um ensaio de vedação. Esse caso aconteceu em uma empresa do ramo químico, com os profissionais brigadistas, que atuam no atendimento a emergências.
O trabalho da brigada para emergências é de grande importância em empresas de todos os setores e torna-se indispensável à empresa ter este grupo de profissionais treinados e preparados para atuar em casos de necessidade. Hoje existe a figura do brigadista profissional, porém as empresas ainda dependem de voluntários. Tanto os profissionais brigadistas como os voluntários são pessoas que gostam desse desafio e, muitas vezes, colocam sua própria vida em risco, o que devemos evitar, sempre.

Nos treinamentos, os instrutores sempre procuram simular situações nas quais os brigadistas passam por um certo estresse, seja para apagar um fogo controlado ou para salvar outra pessoa. Às vezes, abusam um pouco dessas simulações e podem colocar as pessoas em risco real de vida ou à sua saúde. Feita esta introdução, vamos ao caso.
Enquanto realizávamos os ensaios de vedação facial, solicitados por uma determinada empresa e, conforme a norma recomenda, um dos trabalhadores que estava sendo submetido ao procedimento ficou surpreendido com o método utilizado para a execução do ensaio. Fez um comentário jocoso, brincalhão, afirmando que esses ensaios realizados em uma sala, sem a presença de um produto tóxico, eram muito brandos, muito fáceis. Aquilo chamou a atenção do condutor do ensaio, pois ele o estava realizando conforme o padrão convencional de ensaio de vedação facial quantitativo. Os ensaios de vedação aprovados não utilizam substâncias perigosas à vida ou à saúde.
Quando indagado, esse trabalhador mencionou que, para verificação da vedação em máscaras autônomas, um técnico tinha um método muito mais rápido e agressivo. Disse que não precisava seguir esse protocolo que requer respiração normal, respiração profunda, mover a cabeça, fazer caretas etc. O teste é feito em uma sala bem pequena, mais ou menos parecida com um sanitário individual, com um vidro na porta para enxergar o interior, sem a necessidade de entrar.
Antes de entrar na sala, o condutor do teste pergunta se a pessoa sabe utilizar a máscara, pede para colocá-la na face e ajustar os tirantes, sem outras explicações a respeito do uso. As máscaras utilizadas são do tipo peça facial inteira, as mesmas acopladas nos cilindros autônomos. São equipadas com filtros para gases ácidos para retenção dos gases que serão gerados na pequena sala.
O trabalhador protegido pela máscara entra na sala e o condutor do teste abre um cilindro de gás cloro que é inserido na sala por meio de uma mangueira. Se não estiver preparado para enfrentar uma situação como essa, ou houver qualquer falha no respirador, o trabalhador que está sendo submetido ao teste vai tentar sair imediatamente da sala e buscar uma área ventilada, longe da sala contaminada. Houve casos nos quais a pessoa saiu tossindo, com os olhos lacrimejando e com falta de ar. Eles próprios chamaram o teste de “roleta russa”, pois alguns trabalhadores conseguiam ficar dentro da sala por 1 ou 2 minutos, porém sempre alguém tinha algum problema. Vamos fazer uma reflexão sobre esse “método” de verificação da vedação facial.
O gás cloro é altamente tóxico e irritante. Em um ambiente fechado, pode atingir altíssimas concentrações, em pouco tempo. Nessas situações de exposição, pode causar irritações gravíssimas, edema pulmonar, bloqueio das vias respiratórias e asfixia. As etapas para a realização dos ensaios de vedação estão definidas no Programa de Proteção Respiratória da FUNDACENTRO e seguem procedimentos definidos e seguros. Os resultados dos ensaios permitem a comparação entre diferentes tipos de equipamentos de proteção respiratória e asseguram os valores de Fator de Proteção Atribuído. Qualquer teste alternativo não garante a eficácia do equipamento e pode colocar o trabalhador em situação de risco à vida ou à saúde.
Esperamos que este caso tenha sido útil e esclarecedor ao seu trabalho e atividade. Você conhece ou tem algum caso de proteção respiratória parecido? Envie-nos para compartilharmos. Um grande abraço e obrigado por acessar e ler este artigo.