Semana passada publicamos um artigo sobre monitoramento de uso de respiradores. Mencionamos a necessidade de se escrever um procedimento para essa finalidade. O documento da FUNDACENTRO trata desse e de outros requisitos do programa como procedimento operacional. Isso significa, definir claramente como a atividade é realizada. No artigo desta semana vamos dar algumas dicas sobre o conteúdo de um procedimento para monitoramento de uso, apresentando um caso real.
Uma grande mineradora (mina de ouro) tinha um Programa de Proteção Respiratória muito bem elaborado e implementado. Os técnicos e engenheiros de segurança da empresa se gabavam do fato do programa ter sido orientado pelo saudoso professor Maurício Torloni. Entre os documentos do PPR havia um procedimento para monitoramento de uso de respiradores. Nele estava contemplada as etapas e o planejamento das atividades para a verificação da habilidade do trabalhador na colocação do respirador na face, a verificação da vedação facial, o uso durante todo o período de exposição aos contaminantes atmosféricos presentes e outros requisitos do PPR.
A empresa chamou alguns especialistas, parceiros nas atividades do PPR, para realizar uma auditoria focada nesse procedimento. Além dos dois especialistas convidados, participaram alguns profissionais do SESMT da empresa. A missão do grupo era visitar as áreas nas quais o uso de respiradores era requerido e fazer as verificações relativas ao uso correto do EPR. O grupo abordava os trabalhadores, de forma aleatória, e perguntava sobre a razão pela qual utilizavam aquele tipo de proteção respiratória, observava a vedação facial com ênfase na presença de pelos faciais e na colocação do respirador na face. Os trabalhadores eram questionados sobre a verificação da vedação facial, sobre os critérios para troca de filtros, limpeza dos respiradores e outros cuidados que estavam sob suas responsabilidades.
A orientação aos participantes da auditoria foi que não deveriam ter uma abordagem agressiva, mesmo em caso de falta de atenção ou descumprimento do procedimento operacional. Uma observação importante que merece nota foi a ausência dos líderes nessa atividade de auditoria. Eles acompanhavam a distância, e estavam claramente irritados com a possível perda de tempo dos trabalhadores enquanto eram abordados pelos auditores.
Após um dia todo de trabalho, os auditores se reuniram com a gerência da fábrica para comunicar os resultados da auditoria. No geral, foi muito positivo, a maioria dos entrevistados estavam cientes e faziam o uso correto dos respiradores. Alguns trabalhadores não estavam bem-informados ou não utilizavam os respiradores conforme definido no PPR. O comportamento dos encarregados e líderes também foi destacado.
Com bases nessas informações, os técnicos de segurança no trabalho prepararam um documento com ações corretivas. Entre essas ações, estava o reforço nos treinamentos para os trabalhadores e, principalmente, para os líderes e encarregados. Ficou definido que os líderes e encarregados, responsáveis pela produção e pela qualidade dos produtos processados, deveriam também acompanhar e cobrar o uso correto dos respiradores nas áreas onde a exposição a agentes químicos era considerada perigosa.
O monitoramento de uso é parte muito importante do Programa de Proteção Respiratória e deve envolver os líderes e encarregados. Eles conhecem os riscos e estão próximos aos trabalhadores.
A seguir, apresentamos alguns itens que devem ser verificados durante uma auditoria e monitoramento de uso de respiradores*:
• Verificar se o usuário sabe retirar e colocar o respirador na face.
• Verificar a vedação facial (assentamento do respirador na face, pelos faciais, tensão dos tirantes etc.).
• Usuário está informado sobre os riscos da exposição no local de trabalho?
• Verificar a integridade do respirador (peça facial, filtros, tirantes, clipe nasal, válvulas, visor no caso de máscaras faciais etc.).
• Verificar se o usuário sabe realizar a limpeza da peça facial, troca de filtros e troca do respirador, quando necessário.
• Verificar se o trabalhador sabe da importância de cada parte do respirador: filtros, válvulas etc.
• Verificar a compatibilidade com outros EPIs e perguntar se há algum incômodo no uso do respirador e outros EPIs (dificuldade respiratória, campo de visão, comunicação, uso de lentes corretivas).
• Questionar sobre a guarda dos respiradores durante o almoço e após a jornada de trabalho.
*Alguns procedimentos devem ser realizados fora da área de risco, pois podem expor o trabalhador aos agentes ambientais presentes.