Nesta semana vamos contar um caso relacionado a ensaio de vedação que aconteceu em uma grande indústria metalúrgica. Uma trabalhadora do laboratório com exposição não rotineira a agentes ambientais fazia uso esporádico de um respirador tipo PFF2. Conforme requerido pelo documento da FUNDACENTRO – Programa de Proteção Respiratória – Recomendações, seleção e uso de respiradores, ela foi submetida a um ensaio de vedação qualitativo.
Por fazer uso esporádico, essa trabalhadora questionou a real necessidade de fazer o ensaio de vedação. O condutor do ensaio explicou que era um requisito normativo, e que todos os usuários, independente do tempo de uso, precisavam ser submetidos ao ensaio. Iniciou-se a preparação para os ensaios e foi realizado o teste de sensibilidade com a sacarina, sem o respirador.
A candidata informou que estava sentindo um sabor adocicado bem longe, correspondendo às expectativas do condutor. Quando vestiu o respirador sobre a face, reclamou muito, dizendo que era desconfortável, que os elásticos dos tirantes apertavam muito e incomodavam, os óculos com lentes corretivas que utilizava embaçavam etc. Ainda assim, recolocou o capuz e iniciou o ensaio de vedação.
O protocolo indicava que deveriam ser dadas 10 borrifadas da sacarina presente no nebulizador. Na terceira borrifada, a trabalhadora acusou o gosto doce, característico da sacarina e retirou o respirador da face. Disse que o produto era de qualidade duvidosa e deixava passar tudo. O condutor do ensaio repetiu o procedimento mais uma vez e, como novamente a trabalhadora acusou a percepção do gosto da sacarina, pediu que ela lavasse o rosto, bebesse água e voltasse no período da tarde para uma nova tentativa.
O condutor do ensaio percebeu algo estranho no comportamento da trabalhadora. Quando ela retornou, iniciou novamente os testes, primeiro com a solução diluída e sem uso do respirador para verificar a sensibilidade ao gosto da sacarina. A reação da trabalhadora ao teste foi normal, ou seja, ela conseguiu perceber o gosto adocicado da sacarina. No ensaio propriamente dito, com o uso do respirador, utiliza-se uma solução 100 vezes mais concentrada que a solução do teste de sensibilidade. Só que nesse caso, o condutor do ensaio colocou água no nebulizador. Após cinco borrifadas, a trabalhadora acusou que sentia um gosto forte de sacarina na boca.
Quando indagado, o administrador do programa consultou o médico da empresa e esse não havia realizado um exame específico para uso de respiradores nessa trabalhadora. Quando submetida ao exame, o médico constatou que ela sofria de claustrofobia, por isso se incomodava com o uso do respirador e, mais ainda, com o capuz que era colocado sobre a cabeça para realização do ensaio de vedação qualitativo.
Estudo realizado no Reino Unido sobre “Erros Humanos em Ensaios de Vedação Qualitativo*” mostrou que os erros mais comuns cometidos pelos condutores do ensaio são relacionados a instruções ao usuário sobre colocação e verificação do ajuste do respirador na face, verificação do funcionamento correto do nebulizador e condução do teste de sensibilidade.
O HSE (Health and Safety Executive), órgão governamental para segurança e saúde no Reino Unido, publicou um guia para realização dos ensaios de vedação, que deve ser seguido pelos condutores de ensaio. Existe um processo de certificação para condutores dos ensaios de vedação patrocinado pela associação das indústrias de equipamentos de proteção e segurança, no Reino Unido. O estudo demonstrou que condutores de ensaio de vedação certificados por esse sistema cometeram menos da metade dos erros cometidos por profissionais não certificados. Ainda que o estudo revele essa grande diferença, não há uma obrigação regulatória ou legal dessa certificação para os condutores de ensaios de vedação.
Este pode ser um bom tema para discussões no Brasil.
*Karen M. Long, Nathalie Mai, Michael Williams – Human Errors in Qualitative Respiratory Protective Equipment Fit Testing: A Study of Real-World Fit Testers.
Material muito interessante, uma vez que realmente o Capuz e mais o respirador causar uma sensação de incomodo para quem não tem ou nunca fez o Fit tes, e quando s etem sintomas de claustrofobia aí a avaliação deve seguir outros parâmetros.